O que é para sempre, sempre acaba. (Cássia Eller)
Estamos preparados para isso, para encerrarmos ciclos?
Pois é, tudo na nossa vida tem ciclos. Ciclo da infância, da adolescência, do jovem adulto, da maturidade, da velhice...
Ciclo da pré-escola, primeiro e segundo graus (hoje chamados de ensino fundamental e médio), faculdade, pós etc.
Fazemos amigos e os perdemos a cada novo ciclo. Alguns são mantidos. Mas novos serão feitos.
Depois vêm os ciclos dos trabalhos. Onde novos amigos são feitos e perdidos. Talvez fossem apenas colegas. Sabe-se lá. Não é esse o objeto desse artigo.
Esses ciclos duram até nossa morte.
Eu tive meu ciclo. Fui tudo isso. Na adolescência, fui um excelente esportista. Depois, fui um bom marido. Em seguida, um pai amoroso. Após, alguém que a sociedade me reconheceu como um bom delegado. Enfim, me realizei em tudo o que me dispus a fazer. Mas eram tudo ciclos.
Hoje estou novamente casado. Em um novo ciclo. Com uma nova e maravilhosa família. Mas precisei me adaptar aos costumes novos, sogros e cunhados. E sobrinhos e novos amigos. Tudo faz parte.
Em um dado momento, ou em vários, esses ciclos acabaram. E começaram outros. E começarão outros e outros, até que tudo acabará.
Eu era filho até dias atrás, até que minha mãe morreu. Meu pai já havia ido na década de 90. Agora sou o patriarca da família. Filho mais velho. Estou preparado para isso? Alguém está preparado para isso? Eu não me preparei para isso. Os grandes guerreiros conseguem se adaptar às adversidades. É isso o que estou tentando fazer.
Até pouco tempo atrás eu era "o cara" na polícia, hoje não mais. Daí veio a rotatividade. Creio que eu não estava preparado para isso. Porém, é isso o que acontece em tudo em nossas vidas. As instituições precisam disso. Mas não devem simplesmente se desfazer dos que a tornaram o que são em seus ciclos. Isso é reconhecimento.
Ciclos.
Muitos não suportam o término do seu ciclo e não se adaptam ao próximo ciclo. Muitos se mataram por isso. E outros se matarão. Temos que nos preparar. Mas não tenho dicas para ajudar.
Eu já tenho quase 53 anos vividos. Tenho mais de 33 anos de contribuição previdenciária. Estou a 26 anos na polícia. Quase metade da minha vida. Já faz quase 3 anos que tive direito à inatividade. Mas não consegui. Acredito que ainda meu ciclo na polícia não é para acabar. Acredito que não esteja preparado para a inatividade. Não sei ser outra coisa a não ser ser policial. Acredito que ainda tenho força e disposição para mais algum tempo na atividade. Acredito que os mais novos ainda precisam da minha experiência. Por tudo isso, creio, não passarei ainda desse ciclo para o próximo.
Vou tentar uma opinião.
Façamos o seguinte: vamos aprender com o ciclo passado e viver o ciclo presente e preparar o futuro. Ninguém passará por nós o que devemos passar.
O que fazemos na vida, ecoa na eternidade. (do filme Gladiador)
Deixemos um legado que mereça ser contado com orgulho pelos nossos descendentes. Por todos os que nos consideram. Se se dispõe a fazer algo, faça o melhor. Feche o seu ciclo de uma forma que seus filhos possam se orgulhar de você.
Tentemos chegar ao final de uma etapa com a sensação do dever cumprido, sem ter aberto mão de seus valores éticos fundamentais. Nem tudo precisa ser dito, mas, quando for dizer, seja verdadeiro e cortez.
Plante sua semente do bem. Quem sabe alguém te ajudará a adubar e aguar até que se torne uma floresta.
Viva a vida com intensidade. Não passe por ela despercebido. As pessoas que se calam deixam que as que se manifestam transforme o mundo da sua forma. Que pode não ser a correta ou a melhor para você e sua família e amigos.
Não percamos a esperança em dias melhores. Não sejamos pessimistas passivos. O pessimismo pode até nos pegar, mas não a passividade. Lutemos contra o mal. Só o bem pode vencer.
O fim de nosso ciclo não pode não ter rendido algo de bom para o mundo. Não devemos pensar apenas no nosso bem e dos mais próximos, o que poderia ser egoísmo. Esse bem tem que transcender essa redoma, e atingir toda a coletividade.
O silêncio dos bons é muito pior do que o grito dos maus.
E que Deus nos ajude.
Flávio Henrique Stringueta
Delegado de Polícia